Santa Aliança: o serviço secreto mais secreto da história a serviço de Deus
Fábio Pereira Ribeiro*
Resumo
Religião, guerra, espionagem, política e estratégia são conceitos e questões que, de alguma forma em toda a história mundial,sempre estarão ligados de forma íntima e, principalmente, através de atos que confirmam suas atuações. O presente texto aborda a história mais secreta do que se pode imaginar de interesses particulares entre religião, espionagem e estratégia política, a história da Santa Aliança, o serviço de Inteligência do Vaticano. Criado com o objetivo de neutralizar o avanço do protestantismo inglês, o serviço do Vaticano se desenvolveu a partir de um conjunto de operações que integravam ações de espionagem com os serviços divinos da própria igreja.
A história da Santa Aliança se confunde com a história moderna do Estado Papal e, ao mesmo tempo, tem grandes passagens que formaram a base de poder do Estado do Vaticano na história mundial: passagens em praticamente todos os grandes conflitos históricos, atuação no período de Guerra Fria. É importante considerar-se que o avanço e proteção da Igreja Católica até hoje dependem das estratégias produzidas pela Santa Aliança.
Introdução
O tema serviços secretos sempre traz uma lembrança clara dos filmes de espionagem à la James Bond, em 007, e Ethan Hunt, em Missão Impossível, com ações mirabolantes e extravagantes sobre o mundo da espionagem.
Em toda a história dos serviços de Inteligência, existe uma que é das mais intrigantes deste mundo subterrâneo e que reflete um mundo quase não existente na mente popular: a história do serviço secreto do Vaticano, ou da Santa Aliança, o serviço de espionagem do Papa. Considerado o mais antigo em funcionamento, é também reconhecido como o melhor do mundo, no aspecto de suas ações clandestinas e do segredo em que suas ações são tratadas. Sua história está intimamente ligada com a dos Papas, pois a força e o poder destes foram construídos por meio das ações encobertas de um serviço secreto fortalecido em ações e fundamentos de poder (FRATINNI, 2004).
O poder Papal foi fundamental para o desenvolvimento de seu serviço secreto e este poder era tanto que Napoleão Bonaparte considerava o papado como um dos melhores ofícios do mundo (LEBEC, 1999). O próprio Adolf Hitler avaliava o papado como uma das organizações mais perigosa e delicada da política internacional. O mesmo Napoleão acreditava que o poder papal era equivalente à força de um exército de mais de duzentos mil homens (FRATINNI, 2004).
Este poder tem objetivos claros: fortalecer a ideologia da Igreja Católica e também a manutenção de suas estruturas em relação à construção do sistema internacional. O poder papal foi construído sob a forma aberta e real da manutenção dos ensinamentos de Cristo, mas também sob ações encobertas que envolviam assassinatos de reis, envenenamentos de diplomatas, apoio a operações e a sabotagens em relação a Estados contrários às políticas do Vaticano, financiamento de grupos terroristas, alinhamento com Nazistas, apoio a ditaduras, proteção de criminosos de guerra, lavagem de dinheiro da máfia e manipulação do sistema financeiro e das crises bancárias. Todas essas ações eram realizadas em nome de Deus e com a utilização da Santa Aliança como instrumento de poder e força para sua execução.
A história da Santa Aliança está intimamente ligada com o poder do Vaticano, pois este é seu grande instrumento para a conquista de vantagem do Papa. No céu, o Papa tem Deus, na terra, o Papa só tem a ele mesmo e, na clandestinidade, o Papa tem a Santa Aliança (FRATINNI, 2004). Assim nasce um serviço secreto O grande motivo do nascimento da Santa Aliança foi o momento crítico vivenciado pela Igreja Católica em determinado período histórico, pois, no momento de sua criação, o mundo ou a Europa, vivia um ambiente de guerra ideológica sobre a religião, no contexto do protestantismo inglês contra o catolicismo romano.
Em 1566, o Papa Pio V (1566-1572) criou o primeiro serviço de espionagem papal com o objetivo de lutar contra o protestantismo representado pela Rainha Isabel I, da Inglaterra (FRATINNI, 2004). O nascimento da Santa Aliança tem como fim primordial a neutralização do crescimento e do avanço do protestantismo e, para tal evento, o cardeal João Pedro Caraffa (que se tornara o Papa Paulo IV) convoca o padre Miguel Ghislieri para assumir uma missão mais do que especial: a criação do serviço de contra-espionagem. Este serviço, desenvolvido de forma piramidal, estava estruturado com o objetivo de coletar informações a respeito daqueles que pudessem violar os preceitos papais e os dogmas da igreja, além de produzir possíveis provas para os juízos da inquisição (ALVAREZ, 2002).
O jovem Ghislieri era um adepto das sociedades secretas e o seu envolvimento com a Santa Aliança e o Santo Ofício (inquisição) consistia em colocar em prática sua maior paixão, o submundo das sociedades secretas. Menos de um ano após a criação da Santa Aliança, quase duzentas mil pessoas sofreram com suas atividades de investigação, tortura e morte, articuladas em conjunto com a Santa Inquisição. Durante o processo de criação da Santa Aliança, Ghislieri desenvolveu uma estrutura de informações com padres espalhados por toda Europa, sistemas de correspondência e códigos de proteção, incluindo um método conhecido como Informi Rosso (Informe Vermelho), que consistia em um pequeno pergaminho que ia enrolado em uma cinta vermelha com o escudo do Santo Ofício. Conforme as leis vigentes se ocorresse a ruptura da cinta ou selo, o responsável era punido com a morte (BUDIANSKY, 2005). No Informi Rosso, os agentes de Ghislieri escreviam todas as informações ou acusações sobre qualquer pessoa, mesmo sem provas, que atuasse contra a política do Estado Papal e descreviam também as violações contra as normas papais, que podiam constituir possíveis ações que levariam o cidadão para as fogueiras da inquisição. O Informi Rosso era depositado em uma pequena caixa de bronze que ficava na sede romana do Santo Ofício.
A primeira grande função da Santa Aliança foi o desenvolvimento da aliança com a rainha católica Mary Stuart, da Escócia, e também a realização de ações encobertas para coletar informações que poderiam ser utilizadas contra a rainha Isabel I, que poderiam constituir uma intriga para derrubar a mesma e colocar a rainha Stuart no poder, e assim neutralizar de vez o avanço do protestantismo inglês. Os motivos eram claros, os ingleses consideravam os católicos traidores da coroa e, neste caso, a mentora da história era a igreja protestante anglicana. Assim, muitos atos contrários aos católicos foram praticados na Inglaterra pelo serviço secreto da Rainha Isabel I, por meio do seu principal agente, Sir Francis Walshingham que, juntamente com o Sir Christopher Marlowe (este possivelmente poderia ser Willian Shakespeare), articulou ações de perseguição contra os católicos. Mas, na esfera do submundo da espionagem, diversas ações foram realizadas pela Santa Aliança com o intuito de assassinar a Rainha Isabel I, todas desarticuladas por Walshingham, que mantinha espiões infiltrados nos vários segmentos sociais da Inglaterra (HOGGE, 2005).
Para neutralizar as ações inglesas, a Santa Aliança prepara o seu melhor e mais atuante agente, um jovem italiano chamado David Rizzio, que estava vinculado ao conjunto de assessores do embaixador de Savoia, que visitava a Escócia naquele período. Rizzio, além de ser um agente da Santa Aliança com serviços prestados em apoio ao Reino da Escócia, também é levado aos serviços noturnos da alcova da Rainha Mary Stuart e passa a ter acesso a todo tipo de informações e documentos secretos do reino da Escócia, além de desenvolver estratégias contrárias ao reino da Inglaterra. A função de Rizzio foi ampliada: além de atuar em um plano para neutralizar as ações inglesas, ele tinha como missão minar qualquer avanço protestante sobre a rainha Mary Stuart, que naquele momento era alvo de um agente inglês (ex-católico) John Knox. Segundo Fratinni (2004), este agente inglês tinha como objetivo reverter o quadro católico na Escócia, derrubar Mary Stuart e continuar o avanço protestante por todo reino inglês na Europa. Rizzio mantinha informada toda estrutura papal por meio dos informes coletados sobre os passos de John Knox e sua rede de agentes que exercia influência no reino da Escócia.
Durante muito tempo, David Rizzio manteve neutralizadas as ações da Inglaterra sobre o reino da Escócia e, principalmente, manteve o poder papal fortalecido por meio de ações de sabotagem, influência política, assassinato de possíveis espiões ingleses e, principalmente, de influência católica sobre a rainha Mary Stuart. Mas o processo durou pouco, David Rizzio foi assassinado em uma emboscada praticada pelo marido da rainha Stuart, que foi motivada por ciúmes e realizada com a utilização de ações clandestinas de espiões ingleses, que conseguiu neutralizar os passos da Santa Aliança (Ibid., 2004). A partir deste momento, a estrutura papal percebeu que necessitaria de um fortalecimento de suas ações sobre toda Europa, para efetivamente constituir a força de Deus príncipes e ditadores, realizar associações com terroristas e nazistas, utilizar a igreja como banco e, principalmente, neutralizar o avanço comunista no século XX.
A Santa Aliança esteve por trás das maiores operações de espionagem e as ações e peripécias de seus agentes estão muito além daquelas realizadas por James Bond nos filmes. Estas ações cresceram a tal ponto que, no século XX, a Santa Aliança tinha estreitas relações com o Serviço Secreto israelense, o Mossad, por meio do Cardeal Luigi Poggi, que era considerado o espião de João Paulo II (ALVAREZ, 2002). Esta parceria ajudou o Mossad a desarticular um atentado contra a primeira ministra Golda Meir durante sua visita à Itália com o Papa Paulo VI.
O Serviço Secreto do Vaticano esteve atuante em outros grandes fatos da história, como a quebra do Banco Ambrosiano e de sua estrutura IOR (Istituto per le Opere di Religione), que acabou ajudando no financiamento do Sindicato Solidariedade, de Lech Walesa, com o intuito de desarticular o comunismo, em parceria com a CIA, a agência de espionagem americana (FRATINNI, 2004). Durante mais de cinco séculos de história, a Santa Aliança participou de várias operações e atentados, inclusive da matança da “noite de São Bartolomeu”, do assassinato de Guilherme de Orange e do Rei Henrique IV da França, da Guerra da Sucessão Espanhola, da crise com os cardeais Richelieu e Manzarino da França, do atentado contra o Rei José I de Portugal, da articulação na Revolução Francesa, da ascendência e da queda de Napoleão Bonaparte, da guerra de Secessão Americana, das relações secretas com o Kaiser sobre os homens, por meio de um instrumento de espionagem, a Santa Aliança.
Cronograma da Espionagem Podemos classificar as ações da Santa Aliança em períodos históricos, as quais se iniciaram com o objetivo claro de derrubar a Rainha Isabel I, mas com o passar do tempo foram direcionadas para a manutenção da fé, a neutralização de pessoas contrarias aos dogmas católicos e, principalmente, o fortalecimento do poder do Papa na terra. (LAINEZ, 2005) Estas ações incluíam atender as necessidades da inquisição e dos dogmas católicos, promover a expansão da igreja católica, facilitar os contatos internacionais da Santa Sé e apoiar a solução de intrigas entre os diversos Estados que formavam a Europa, além de dirimir intrigas entre Guilherme II, durante a Primeira Grande Guerra, além de articulações amistosas com Adolf Hitler, na Segunda Grande Guerra, e também apoiou a organização secreta ‘Odessa’, que ajudava na fuga de nazistas da Alemanha, principalmente para a Argentina e o Brasil, a luta contra o grupo terrorista Setembro Negro, em apoio ao Mossad, a caça do terrorista ‘Carlos, O Chacal’ e principalmente a queda da força do comunismo no mundo, como prioridade de ações do mandato de João Paulo II (Ibid., 2004).
Nestes séculos, diversas sociedades secretas atuaram em conjunto com a Igreja e dependiam totalmente da Santa Aliança, como o Círculo Octogonus e a Ordem Negra, realizaram diversas operações encobertas em parcerias com o Mossad e com a CIA, sem contar ações em conjunto com MI5 e MI6 inglês e com o SIDE argentino. Todas as operações tinham um claro objetivo: combater o comunismo, o terrorismo árabe e, principalmente, qualquer um que pudesse interferir na doutrina da fé da igreja católica. Conforme disse um dos mais poderosos chefes da Santa Aliança na metade do século XVII, o cardeal Paluzzo Paluzzi, “se o Papa ordena liquidar a alguém em defesa da fé, se faz sem perguntar. Ele é a voz de Deus, e nós (a Santa Aliança) sua mão executora” (FRATINNI, 2004).
A sua estrutura é um grande segredo até hoje, muitas vezes não confirmada pelo próprio Vaticano. Os sacerdotes do Vaticano, do serviço de espionagem Papal e da contra-espionagem, o Sodalitium Pianum, desenvolveram ações que não condizem com a fé cristã, mas tinham como objetivo a proteção da Fé como o seu maior atributo e direção de suas ações. No período mais conturbado da história, a Guerra Fria, onde os serviços secretos viviam suas maiores batalhas, a Santa Aliança teve um papel fundamental. Ela era o braço do Papa para combater o avanço do comunismo e o seu principal agente, a famigerada KGB, o serviço secreto soviético. Neste período, a Santa Aliança se dedicou a estabelecer contatos e agentes por toda Europa do Leste e sua contra-espionagem a realizar constantes ações de vigilância de diversas personalidades da Cúria Romana, que poderiam ser alvos da KGB.
A KGB, como prática constante, introduzia agentes duplos nos diversos serviços secretos do mundo para obter o máximo de informações que poderiam indicar o avanço do comunismo no mundo, tendo em vista que o Vaticano era um dos alvos. Muitos padres foram agentes duplos da KGB e um dos casos foi do padre jesuíta Alighiero Tondi, que delatava os padres que o Vaticano mandava para União Soviética de forma clandestina para propagar a fé católica. Durante o período da Guerra Fria, os anos finais foram os mais intensos para a Santa Aliança, pois a ascensão do novo Papa João Paulo II e sua estratégia de propagar a religião para todos os confins do mundo iam ao encontro das ações da Santa Aliança. A propagação da fé católica de forma intensa na mídia, as ações para neutralizar o avanço do comunismo (como estratégia básica de um polonês no pontificado), além de medidas para combater o terrorismo internacional, foram situações da qual a Santa Aliança participou intensamente como ‘a mão secreta do Papa’, incluindo operações escusas e contrarias aos ensinamentos de Cristo.
Hoje, em pleno século XXI, nada pode ser conhecido sobre o serviço secreto do Vaticano, ou a Santa Aliança, por uma razão simples: espionagem, poder, política e, principalmente, religião não devem se misturar, mas com certeza sempre serão assuntos integrados na história da humanidade. O famoso caça nazistas Simon Wiesenthal, conforme citado em Fratinni (2004), declarou em uma entrevista que o “melhor e mais efetivo serviço de espionagem que conheço no mundo é o do Vaticano”. Hoje, no mundo da espionagem, na era da ‘Guerra contra o Terror’, o serviço secreto do Vaticano é conhecido com o ‘A Entidade’. Entretanto, a defesa da fé, da religião católica, dos interesses do Estado do Vaticano e de toda a obediência ao sumo sacerdote, sua santidade o Papa serão os pilares para o fortalecimento da Santa Aliança (LOPES, 2005).
A Santa Aliança, ou ‘A Entidade’ sempre será negada, mas quando um inimigo aparecer na frente dos objetivos papais, suas garras apresentarão a força de Deus, mas com certeza sempre em defesa do bem sobre o mal.
Referências
ALVAREZ, David. Spies in the Vatican: espionage, intrigue from Napoleon to the holocaust. Kansas: University Press of Kansas, 2002.
BUDIANSKY, Stephen. Her majesty´s spymaster. New York: Penguin Group, 2005.
FRATINNI, Eric. La Santa Alianza: cinco siglos de espionaje vaticano. Madrid: Espasa, 2004.
HOGGE, Alice. God´s secret agents. New York: Harper Collins, 2005.
LAÍNEZ, Fernando Martinez. Escritores e espiões: a vida secreta dos grandes nomes da literatura mundial. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2005.
LEBEC, Eric. História secreta da diplomacia vaticana. Petrópolis: Vozes, 1999.
LOPES, Antonio. Los Papas: la vida de los pontífices a lo largo de 2000 años de historia. Roma: Futura, 2005.
Autor: Fábio Pereira Ribeiro. Especialista em Política Internacional e Inteligência Estratégica, diretor de Marketing e Novos Negócios da Strong Educacional Esags conveniada FGV.
Fonte: Revista Brasileira de Inteligência. Brasília: Abin, n. 6.