Os maus ventos vindos do Ocidente
Há quatro anos, quando a crise financeira chegava a seu ponto menos grave, muitos governos asiáticos acreditaram que seu forte crescimento lhes havia permitido "descolar" quase inteiramente das economias ocidentais e seus persistentes problemas. Agora, no entanto, enquanto a região do euro cambaleia e a recuperação dos Estados Unidos perde força, a Ásia também mostra sinais de arrefecimento.
Vejamos a Índia. De acordo com a empresa de projeções econômicas International Market Assessment (IMA), "os fluxos de capitais que secaram não são [...] reflexo das condições dos mercados internacionais", mas de uma perda de confiança dos investidores, principalmente em decorrência da má administração fiscal, que levou à "instabilidade de preços, diminuição dos investimentos e, em algum momento, [levará] a um declínio no [...] crescimento." Com o "governo em letargia", conclui a IMA, a "Índia está perdendo rapidamente o fio da meada."
A situação da Índia é realmente preocupante. A inflação dos alimentos, superior a 10%, vem sendo acompanhada pelo debate sobre a parcela de indianos vivendo abaixo da linha de pobreza e, aliás, até sobre em que ponto a linha de pobreza deve ser traçada. As estatísticas oficiais determinam uma renda mínima diária de 32 rupias (US$ 0,57) para separar os meramente pobres dos desesperadamente miseráveis.
Com China e Índia já em dificuldades, a Ásia sabe que será atingida duramente se o euro afundar. Antes que isso aconteça, os governos precisam assumir a iniciativa política e fortalecer a confiança dos mercados na sua capacidade de suportar a turbulência
Em vez de enfrentar o paradoxo central da sociedade indiana contemporânea - pobreza em meio à abundância - o governo da Índia enterrou a cabeça na areia. Proclama reformas arrojadas, para depois repudiá-las antes mesmo de a tinta secar. Ainda pior, a corrupção governamental vem minando o dinamismo do setor privado.
A Índia, contudo, não está sozinha em seus tropeços. A China teme uma desaceleração no crescimento e a inflação salarial em alta. Em resposta, o Banco do Povo da China vem reduzindo as taxas de juros para incentivar o investimento doméstico; e a decorrente depreciação do yuan vem ajudando a manter as exportações à tona. Os números das importações da China no primeiro semestre, contudo, praticamente ficaram estagnados, indicando que as empresas chinesas não vêm investindo em novos equipamentos - e, portanto, que a economia da China pode ficar apática.
Embora seus sistemas políticos sejam opostos, há paralelos notáveis em alguns dos problemas estruturais mais profundos da Índia e China. Ambos promoveram reformas - a China nos anos 80 e a Índia nos 90 - que descentralizaram o processo de tomada de decisões e ambos progrediram rapidamente. A Índia foi encorajada por sua democracia a seguir um caminho politicamente descentralizado, mas boa parte da autoridade sobre as decisões econômicas continuou incrustada na burocracia fossilizada de Nova Déli, retardando o crescimento. Em contraste, a China alcançou a descentralização econômica, mas preservou o poder político centralizado, transferindo em grande parte as responsabilidades de gestão econômica para autoridades estaduais, o que criou seus próprios desequilíbrios.
Portanto, mesmo quando a China se vê obrigada a priorizar o consumo doméstico para sustentar o crescimento, a Índia continua a depender do investimento externo e da exportação de serviços e matérias-primas, assim como da redução dos déficits fiscal e em conta corrente, para manter sua expansão. O principal déficit no país, contudo, é o de governança, da mesma forma que na China, onde o escândalo com Bo Xilai expôs o submundo patológico da tão louvada liderança tecnocrática chinesa.
Os problemas estruturais também se acumulam em outros países da Ásia. No Vietnã, a inflação vem mostrando elevações nos preços de 20% ou mais, com o governo aparentemente pouco disposto a adotar reformas mais profundas. O interminável imbróglio político da Tailândia deixou a economia em velocidade de estol; o zelo reformista do presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, evaporou-se em seu segundo mandato, após a saída da ministra das Finanças, Sri Mulyani Indrawati*; e o Japão parece continuar em estado de animação suspensa.
As mazelas na Europa e a decorrente ascensão de políticas populistas indicam que os governos da Ásia não podem se dar ao luxo de ficar sentados sem fazer nada, vivendo apenas das glórias passadas de seu crescimento. Na verdade, deveriam dar atenção ao recente comentário de Pavlos Eleftheriadis, da Oxford University, sobre um eleitorado grego "lívido por ser liderado por aqueles que desonestamente provocaram o problema". De fato, de acordo com Eleftheriadis, atualmente os cobradores de impostos da Grécia são recebidos por cidadãos brandindo chicotes..
Há ideias ousadas em discussão na Ásia que poderiam sustentar e promover o crescimento. A recente decisão dos líderes da China, Japão e Coreia do Sul, respectivamente, 2ª, 3ª e 12ª maiores economias do mundo, de iniciar conversas sobre um acordo trilateral de livre comércio é certamente audaciosa, embora chegar a um acordo entre duas das principais democracias da Ásia e a China provavelmente fará as fracassadas negociações de comércio internacional da Rodada Doha parecerem coisa pequena.
A Índia, entretanto, não é nem vista nesses cenários. Com a economia de Mianmar abrindo-se ao mundo, a Índia deveria estar assumindo a liderança nos esforços para estimular a integração econômica e crescimento do Sul da Ásia, pois só assim poderá ancorar seu vizinho dentro da região. Quando o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, visitou recentemente Mianmar, pouco teve a oferecer além das propostas usuais de investimento. Uma iniciativa arrojada em relação a Bangladesh também renderia forte impacto positivo no crescimento e, ainda assim, não há nada nesse sentido.
Com os principais países emergentes, particularmente China e Índia, já em dificuldades, a Ásia pode ter certeza que será atingida duramente se o euro afundar. Antes que isso aconteça, os governos precisam assumir a iniciativa política, fortalecendo assim a confiança dos mercados na capacidade da Ásia de suportar os maus ventos vindos do Ocidente. (Tradução de Sabino Ahumada)
* www.project-syndicate.org/contributor/sri-mulyani-indrawati
Jaswant Singh, ex-ministro das Finanças, Relações Externas e Defesa na Índia, é o autor de "Jinnah: India - Partition - Independence" (Jinnah: a divisão da Índia - independência, em inglês). Copyright: Project Syndicate, 2012.
