Obama versus Netanyahu

10/10/2013 08:02

Autor: Newton Carlos - Jornalista

 

O descompasso entre o presidente Obama e o primeiro-ministro Netanyahu, de Israel, em relação aos novos governantes do Irã lembra o que aconteceu anos atrás em reunião do G20. Sem saber que os microfones continuavam abertos por esquecimento, numa entrevista coletiva, Obama e o ex-presidente Sarkozy, da França, trocaram farpas envolvendo Netanyahu. Sarkozy disse que não o suportava, Obama reagiu conclamando “você não o suporta, mas eu tenho de tolerá-lo diariamente”.

Obama reclamava de Sarkozy o fato de não ter sido informado que a França votaria a favor da admissão da Autoridade Palestina na Unesco. Os votos europeus foram, na época, os mais significativos na trajetória da adesão à legitimidade internacional buscada pelos palestinos. Americanos e aliados tradicionais, sobretudo europeus, se dividiram, racha profundo que se ampliou com os 138 votos em favor do reconhecimento, na ONU, da Autoridade Palestina, na condição de Estado.

Fora as abstenções, só restaram sete votos contra. Europeus quase nenhum. Estados Unidos como sempre contra, ao lado de Israel. O Brasil coordenou os votos latino-americanos a favor. Só teve dificuldades com México, Colômbia e Panamá. A América Latina deixava de ser, em corte profundo, caudatária dos Estados Unidos. Nessa assembleia-geral, o presidente palestino Mahaoud Abbas falou pela primeira vez na condição de chefe de Estado e a bandeira palestina foi hasteada ao lado das dos demais países membros. Tornou-se histórico o discursos de Abbas, não pelo que foi dito, mas pelo que significou.

Em artigo na New York Review of Books, Peter Galbraith, ex-enviado americano ao Oriente Médio, disse que os Estados Unidos se tornaram “reféns do Irã no Iraque” e isso pode constituir grande ameaça aos interesses americanos. Os radicais do Hamas ocupam a Faixa de Gaza, junto a Israel, e o Irã tem se mostrado disposto a compensar medidas punitivas sobretudo da parte dos Estados Unidos e dos israelenses.

O Hezbollah, acusado de receber armas e dinheiro do Irã, conta com boa representação no parlamento do Líbano. O Irã tem tido aí sua geopolítica em aliança com a Síria. A Irmandade Muçulmana saiu das catacumbas no Egito e ainda não se sabe se os militares pró-americanos conseguirão amordaçá-la.

São cenários de estrangulamento, com presença difusa mas efetiva, do Irã, sem que se possa prever como os novos governantes do Irã lidarão com essa geopolítica. O próprio embaixador dos Estados Unidos no Iraque, pró-consul com sinais de desalento, acusou o Irã de armar e até treinar milícias iraquianas.

Importa sobretudo a influência iraniana no processo de formação do “novo Iraque”, tão caro aos americanos. No bloco xiita dominante, a Aliança do Iraque Unido tem sido uma das vozes mais ativas no processo de escolha dos novos governantes iraquianos. Destaque para um clérigo chefe de milícia, inimigo jurado dos Estados Unidos.

A liberdade que perdemos é o título de livro editado há algum tempo na Inglaterra com registros do diário de uma mulher iraquiana, protegida pelo pseudônimo de Riverbend. Ela já via o Iraque pegando fogo, convencida de que o objetivo da maioria xiita é torná-lo teocracia à imagem do Irã. O Conselho Supremo para a Revolução Islâmica do Iraque, dominante na aliança xiita, criou “seções especiais”, em geral perto de escolas, encarregadas de velar pela observância dos princípios islâmicos. O Sciri (sigla em inglês do conselho) foi criado em 1982 no Irã, obra de exilados xiitas.

Em artigo distribuído mundialmente, Henry Kissinger e George Shultz, ex-secretários de Estado americanos, disseram que as primeiras eleições pós-Saddam Hussein, em 30 de janeiro de 2003, resultaram de quase ultimato de Al-Sistani, a mais alta autoridade espiritual xiita. Ela já havia baixado decreto religioso determinando que a nova Constituição fosse redigida por eleitos, de maioria xiita, não por designados pelos ocupantes. E assim aconteceu. E assim continua sendo, com xiitas de maioria dominante contribuindo para atiçar ainda mais o fogaréu que parece consumir o “novo Iraque” tão sonhado pelos invasores americanos.

 

Fonte: Correio Braziliense, 10/10/2013.