O Continente "fora de ordem"
Autor: Silvio Queiroz

O continente "fora de ordem"
Se a conversa do início da semana com Dilma serviu realmente para antecipar o que o espera neste fim de semana, Barack Obama desembarcou ontem em Cartagena de Índias, na amistosa (com os EUA) Colômbia, para confrontar em pessoa uma realidade que a convidada lhe apresentou na Casa Branca enquanto uma espécie de porta-voz. Ao menos foi o tom percebido no relato que a própria presidente fez do encontro com o colega americano, no que diz respeito aos temas hemisféricos. Falando à imprensa brasileira, Dilma pareceu especialmente autoconfiante ao descrever o diálogo sobre um tema que assumiu posição central nas relações de Washington com a América Latina: a reinserção de Cuba no sistema interamericano.
Nada mais, nada menos, a presidente disse que “comunicou” Obama sobre o “consenso”, ao sul do Rio Grande, quanto à presença da ilha nas próximas edições da Cúpula das Américas: “Esta é a última de que ela não participará”. Tão ou mais importante foi a escolha dos termos para satisfazer a curiosidade dos interlocutores quanto à resposta do presidente americano: “Ele não tem que responder. Isso não é uma pergunta”.
Quem acompanha a evolução das relações hemisféricas pela perspectiva do pós-guerra, com a emergência dos EUA à condição de superpotência e o contexto da Guerra Fria, haverá de passar em revista os arquivos para encontrar alguma colocação que se compare. Não em algum comício da Central ou nas bravatas derramadas do balcão da Casa Rosada para multidões saltando no ritmo marcado pelos bumbos da hinchada (torcida) peronista. O simples fato de um governante latino-americano expressar-se nesses termos em plena capital do norte diz muito sobre como a região vê a si mesma e ao continente, nesse início de século.
Do ponto de vista da doutrina do Destino Manifesto, alguma coisa está muito fora de ordem.
Norte e sul
Igualmente significativo é o fato de que Dilma fez questão de apresentar-se, em Washington, como portadora de um consenso que vem sendo construído desde o ponto em que Lula, Néstor Kirchner e Hugo Chávez sepultaram a Alca. O ambicioso projeto de Bill Clinton para estabelecer uma área de livre comércio “do Alasca à Patagônia” foi a pique quando a Cúpula das Américas reuniu-se em Miami, em 2003, já com George W. Bush entregue de corpo e alma às vinganças contra Bin Laden e Saddam Hussein. Nos nove anos passados de lá para cá, sucederam-se os gritos de independência, nos mais variados foros e com os mais variados temas.
Cuba seguirá na pauta das relações norte-sul no hemisfério até algum tipo de normalização entre a Casa Branca e o Palácio da Revolução. Mas o padrão de “isso não é uma pergunta” se estende a questões como a do combate às drogas, para o qual até o México já propõe que se discuta a despenalização como “plano B” para uma guerra na qual os latinos temos oferecido os mortos. Em bom português — e em bom espanhol —, ninguém mais pede licença para debater rumos alternativos aos traçados unilateralmente, do norte para o sul, ao longo da segunda metade do século 20.
Imita a arte
Entre as várias iniciativas nos campos comercial, técnico-científico e outros de uma relação bilateral que hoje tem espaço para as dissonâncias políticas, Brasil e Estados Unidos acertaram o reconhecimento mútuo da cachaça e dos uísques americanos como produtos autênticos de um e outro país. Que a aguardente venha a figurar na pauta de uma visita presidencial é algo que soa como realização de uma “profecia” feita em ficção por Chico Buarque, ainda nos anos 1970, na impagável (e atualíssima) Ópera do Malandro. A trama, adaptada de um musical de cabaré assinado por Bertolt Brecht e Kurt Weil, desenrola-se no Rio de Janeiro dos anos 1940 — justamente o período no qual Getúlio Vargas deu sua tacada-mestra de política externa, alinhando o país aos EUA na Segunda Guerra, em troca do financiamento para implantar a siderurgia e viabilizar o ciclo industrializante empreendido por JK na década seguinte.
Esse pano de fundo, retratado de forma apoteótica no gran finale, está presente desde a abertura. Ela narra a desdita do malandro que, ao dar o cano no botequim após uma dose de cachaça, provoca uma reação em cadeia que desemboca em contencioso internacional, narrado com fino humor nas duas estrofes centrais do samba:
Nosso banco está cotado no mercado exterior então taxa a cachaça a um preço assustador
Mas os ianques com seus tanques têm bem mais o que fazer e proíbem os soldados aliados de beber
Para conhecer ou matar a saudade, segue o link para a faixa de abertura do álbum lançado com a primeira montagem da peça, em 1978: www.youtube.com/watch?v=2ujmpzObjq0
Fonte: Correio Braziliense, 14/04/2012