O 18 Brumário de Vladimir Putin
Autor: Silvio Queiroz
A anexação fulminante da Crimeia recolocou no foco dos observadores da cena internacional a incógnita representada pela Rússia sob o cetro de Vladimir Putin. Simpatizantes e opositores do homem do Kremlin coincidem na constatação de que, nessa década e meia do novo século, Moscou reafirmou-se como fator de poder na geopolítica global. Carismático, autoritário, oportunista: seja qual for o adjetivo escolhido para qualificá-lo, Putin agregou à própria obra política a recomposição do Estado russo. Seus movimentos de enxadrista — ingrediente clássico na formação dos oficiais da KGB soviética — no tabuleiro da Ucrânia parecem desenhar a estratégia para uma nova empreitada: a restauração do império construído pelos czares e demolido com o colapso do comunismo soviético.
Será esse o chefe de Estado que desembarcará no Brasil, pouco depois da Copa, para a cúpula do Brics, em Fortaleza. E com esse personagem contracenará quem vencer a eleição presidencial de outubro, já que Putin conquistou em 2012 um mandato (recém-ampliado) de seis anos. Será o terceiro do presidente russo, depois do período 2000-2008, entremeado por quatro anos como primeiro-ministro do pupilo Dmitri Medvedev — embora ninguém duvide de que, mesmo nesses quatro anos, foi Putin quem realmente deu as cartas.
De volta ao papel principal, o czar repaginado já deixa entrever que seu horizonte se estende para além das fronteiras a que a ex-superpotência foi constrangida pela derrota na Guerra Fria. Passado um quarto de século, bandeira, hino, uniformes militares e outros símbolos da União Soviética teimam em se mostrar presentes, ao menos no inconsciente coletivo da Rússia profunda.
Tragédia, farsa ou…
Em um de seus textos de história mais bem acabados e celebrados, O 18 Brumário de Luís Bonaparte, Karl Marx satiriza o golpe de Estado promovido em 1851 pelo sobrinho do célebre imperador francês. Eleito presidente da cambaleante república, em 1848, ele se fez coroar, a exemplo do que fizera o tio, no início do século, sob o título de Napoleão III. A ironia de Marx começa pelo título, que remete ao golpe de Estado pelo qual Bonaparte (o tio) sufocou a turbulência revolucionária, em 1799, suprimiu o Diretório e, embora mantendo nominalmente a república, implantou a ditadura pessoal como Primeiro Cônsul — apenas cinco anos mais tarde se tornaria imperador, com o expressivo simbolismo de ser ele próprio, e não a autoridade elesiástica, quem colocou sobre a cabeça a coroa.
É nas primeiras linhas de seu 18 Brumário que o pai do materialismo dialético “emenda” um conceito, atribuído a Hegel, segundo o qual fatos e personagens históricos se repetem duas vezes. “(Hegel) se esqueceu de acrescentar: uma vez como tragédia, a outra como farsa”, completa Marx, para disparar uma série de analogias entre a França do tio e a do sobrinho. Napoleão III perdeu a coroa em 1870, meses antes de a Comuna de Paris estabelecer o primeiro — efêmero — governo inspirado no socialismo marxista.
No caso da Rússia, o império dos czares já se repetiu no período soviético, com comissários do povo e secretários-gerais. O primeiro dos patriarcas comunistas, por sinal, foi um Vladimir — Ilitch Ulianov, mais conhecido como Lênin. A pergunta que desafia agora não apenas os estudiosos, mas antes de tudo os demais atores no cenário mundial, é qual dos figurinos propostos por Marx caberá melhor ao novo Vladimir.
Até no calendário
Se a história é tecida também de coincidências e ironias, a ressurgência da Rússia imperial permite analogias com a França do 18 Brumário até mesmo na extravagância que inspirou Karl Marx em seu ensaio. O golpe de Napoleão Bonaparte foi desfechado em 9 de novembro de 1799, período em que a jovem república reinventava as instituições de maneira tão radical que não poupou sequer a contagem do tempo. No calendário revolucionário em vigor, a data oficial era o dia 18 do mês de brumário do Ano 4. A insurreição de Lênin, vitoriosa em 7 de novembro de 1917, entrou para a história como a Revolução de Outubro: na Rússia imperial, o calendário em vigor tinha 13 dias de atraso em relação àquele adotado então e até hoje no Ocidente.
Escrito nas estrelas
Nicolau II, o último czar, tinha na corte Grigori Rasputin, mistura de místico e adivinho, que chegou a exercer considerável influência. Na Rússia de Putin, é o astrólogo Pavel Sviridov quem causa sensação com suas previsões: no fim do ano passado, ele vaticinou que a União Soviética será restaurada, “de alguma maneira”, até 2025.
Por sinal, foi o prazo acertado pelo Kremlin para adotar uma moeda comum com Belarus e Cazaquistão, ambas “repúblicas irmãs” na URSS.
Fonte: Correio Braziliense, 12/04/2014