Negócios de volta ao radar

04/03/2014 09:40

Autor: Paulo Silva Pinto

 

O Investimento Externo Direto (IED) no ano passado, de US$ 64,04 bilhões, foi pela primeira vez em 12 anos insuficiente para cobrir o deficit em transações correntes, que em 2013 somou US$ 81,4 bilhões — a diferença foi coberta com capital especulativo. Para este ano, a expectativa é de que os recursos destinados a fábricas, obras e compra de empresas brasileiras será novamente incapaz de manter as contas externas saudáveis. “Este ano é de ajustes na taxa de juros e no câmbio devido à recuperação da economia internacional. Além disso, há eleições, o que limita o calendário de desembolsos do governo”, apostou o sócio da consultoria PwC Alexandre Pierantoni.

Segundo o especialista na área de fusões e aquisições, 2014 será muito parecido com o ano passado quanto ao IED. “Mas os próximos dois anos serão melhores”, ressaltou. Também a favor dessa tese é o fato de o Produto Interno Bruto (PIB) ter crescido 2,3% em 2013. Após a retração no terceiro trimestre, a expansão de 0,7% no último trimestre do ano passado surpreendeu positivamente e impediu que a temida recessão técnica se confirmasse. Pierantoni e outros analistas apontam, ainda, para o dinamismo de certos nichos, como autopeças, sem o qual o saldo geral do investimento seria menor.

Mas não é só isso. “Muitos setores vão crescer mais do que a média mundial ou a média brasileira. É o caso de fármacos, tecnologia, varejo e infraestrutura”, afirmou Raphael Mazet, vice-presidente da Speyside, empresa com sede em São Paulo especializada em prospecção de negócios para multinacionais na América Latina. Em janeiro, a empresa farmacêutica global Abbvie anunciou o início das operações no Brasil, com investimentos de R$ 20 milhões para a adequação de negócios a partir da estrutura herdada da Abbott, a empresa-mãe.

Potencial
Segundo Mazet, há potencial de ganho bem superior à média do Brasil e do mundo para vários negócios. “Mesmo nos setores em que é possível crescer dentro da média brasileira há o que comemorar. Isso é superior ao que as empresas conseguiriam na França ou na Inglaterra”, explicou. O encantamento que muitos investidores tiveram com o Brasil há alguns anos resultou em frustração, segundo Mazet, mas não para todos.

“Muitas empresas perceberam que é muito difícil navegar na burocracia brasileira. Várias congelaram planos de investimento, sobretudo com o agravamento da situação econômica no mundo. Mas, agora, elas estão decidindo destravar esses planos”, disse.

O vice-presidente da Speyside salientou que 40 milhões de pessoas se incorporaram à classe média no Brasil nos últimos anos. Assim, mesmo em mercados com tendência de baixo crescimento, há boas perspectivas de negócios, desde que se saiba mirar o alvo. “No caso dos carros, a perspectiva é de queda quantitativa neste ano. Mas os consumidores estão mais exigentes, então muitas marcas vão investir nos modelos premium para abocanhar uma fatia maior das vendas.”

A América Latina tem países mais simples do que o Brasil e com crescimento mais forte, como Chile, Peru, Colômbia e México. “Mas a economia brasileira é bem maior. É o dobro da mexicana, que está em segundo lugar. E vale mais a pena para uma empresa entrar em um mercado grande e difícil do que em vários pequenos e fáceis”, ponderou Mazet.

Empresários brasileiros conhecem bem as dificuldades daqui, sobretudo os que convivem com o ambiente regulatório de diferentes países. A Alupar, empresa do setor de energia, concentra a maior parte dos investimentos no Brasil, mas decidiu prospectar negócios também nos nossos vizinhos. Além dos 5.665km de linhas de transmissão em território nacional, tem 200km no Chile e uma hidrelétrica na Colômbia.

No Peru, vai começar a gerar energia agora. “Em todos esses países, há muitos cuidados com o licenciamento, mas nada que se compare à burocracia do Brasil. Para fazer qualquer coisa aqui, é preciso recorrer a autorização de órgãos ambientais, de proteção ao índio, ao patrimônio histórico…, sem falar das negociações que precisamos fazer com sindicatos de trabalhadores”, relatou o diretor-financeiro da empresa, Marcelo Costa.

 

Fonte: Correio Braziliense, 04/03/2014