Munique com nova agenda

20/02/2014 13:27

Autor: Newton Carlos - Jornalista

 

Se as negociações fracassarem, as consequências serão “terríveis”. Um Irã nuclear, uma guerra ou talvez ambos, previu o senador americano Richard Dubin, político envolvido em questões nucleares. Ele acabara de participar de conferência sobre segurança em Munique, cidade alemã com passado nada recomendável. Foi em Munique que Hitler assinou acordos com os chefes de governo da Inglaterra e da França se comprometendo a não tomar decisões que poderiam levar à guerra, como invadir a Polônia.

Invadiu, e Munique incorporou-se à história como sinônimo de acordo traído. O que fez Hitler é citado pelos que se opõem a acordo com o Irã, tema de maior envergadura da agenda de uma conferência sobre segurança realizada em Munique. Presença de Kissinger, entre outros de igual linhagem. Seguramente dos ministros do Exterior de Irã, Inglaterra, França, Rússia, China, Alemanha e do secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerrry.

O ministro do Exterior do Irã, Mohammad Javad Zarif, tratou de reunir-se com todos os negociadores, não apenas com Kerry. Sinal, da parte de Zarif, de que procura mostrar como bom o clima de entendimento entre o Irã e os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha, não só com os Estados Unidos. Não faltou, no entanto, um senão. “Não aceitamos que simplesmente nos digam que não podemos ter essa ou aquela tecnologia”, arrematou Zarif. Tecnologia nuclear, bem entendido.

Munique teve uma agenda de questões de segurança ao redor do mundo, com destaque para a presença de Henry Kissinger, cuja tese de doutorado tratou das implicações do Congresso de Viena, a arrumação da Europa depois das guerras napoleônicas. A Ásia de hoje, por exemplo, segundo disse Kissinger em Munique, “é como a Europa no século 19”. Os conflitos militares não estão fora de cogitação. O presidente das Filipinas, por exemplo, compara a situação de seu país com a da Tchecoslováquia em 1938.

Disputas sobre ilhas no Mar da China lembram, segundo Benigno Aquino, o que Hitler fez com a ex-Tchecoslováquia que acabou resultando na segunda grande guerra. “A China avança na Ásia”, diz Aquino. São anotados com tintas fortes o pedido do presidente filipino para que a China seja “contida” e o deslocamento para o Pacífico de parte da frota do Mediterrâneo dos Estados Unidos. Um ex-candidato presidencial americano, o senador John Mcain, garante que até o secretário de Estado admite o fracasso da política de Obama para a Síria.

Como bom republicano, pede que seja “repensado” o emprego de bombardeios aéreos contra a ditadura síria. Já o conflito entre China e Japão pelo controle de ilhas no Mar da China foi comparado com as tensões entre Inglaterra e Alemanha pouco antes da primeira grande guerra. O primeiro-ministro chinês acusa o Japão de procurar saltar fora de sua história de agressões e mostrou-se enraivecido com a visita do primeiro-ministro japonês ao memorial exaltando criminosos de guerras, inclusive Hideki Tojo e outros 13 executados pelos americanos.

O quadro traçado por Munique é incandescente; Pequim “pressiona” vizinhos marítimos, e o Oriente Médio se desfaz em violência. Líbia implode, Egito tem nova ditadura militar, o Sinai tornou-se terra de ninguém, na Síria morrem milhares numa guerra civil “sectária”. No Líbano, sunitas e o Hezbollah xiita explodem sucessão interninável de bombas. No Iraque afunda o regime xiita. Tribalismo consome o Iêmen, no Afeganistão os talibãs podem estar a caminho de volta ao poder, e o Paquistão nuclear tenta administrar seus talibãs.

Irã e Arábia Saudita disputam hegemonia no golfo. Interrvencionistas americanos, como um ex-redator dos discursos de Reagan, querem o bombardeio da Síria e sanções ainda mais duras castigando o Irã. Mas Obama tem se recusado a ser um presidente de guerra, e os americanos, pelo menos é o que se diz, não querem mais saber de guerras. Tudo isso foi anotado em Munique. A conferir.

 

Fonte: Correio Braziliense, 20/02/2014