Hermanos de olho no Oriente

12/07/2014 10:30

Autor: Silvio Queiroz

 

Será ainda na ressaca monumental da Copa perdida de véspera que a presidente Dilma receberá em Fortaleza os colegas Vladimir Putin (Rússia), Narendra Modi (Índia), Xi Jinping (China) e Jacob Zuma (África do Sul), para a 6ª Cúpula do Brics. É possível que, no cálculo original do Planalto e do Itamaraty, o programa incluísse os cumprimentos pela conquista do sexto título mundial. Mas a agenda do bloco emergente inclui temas que extrapolam a articulação apenas entre os cinco. Tanto mais porque, na sequência do encontro, será a vez de um segundo tempo com os vizinhos da América do Sul e da América Latina.

Em ambos os casos, e sempre por iniciativa chinesa, estará em pauta a delicada equação das trocas entre a locomotiva da economia mundial e um dos mercados consumidores que se ampliam mais rapidamente em meio à crise do outrora chamado “primeiro mundo”. Não é de agora que o Mercosul olha com interesse e preocupação na direção do Pacífico, entre hipnotizado e apreensivo com as levas de navios que desembarcam  no continente uma avalanche de produtos industriais chineses. Já em 2012, às voltas com a crise em torno da suspensão do Paraguai e da integração da Venezuela, o bloco sul-americano começava o movimento para “o outro lado”, contraponto a cinco séculos com os olhos voltados sempre para o Atlântico.

Nesse meio tempo, o cenário global só fez tornar-se mais duro e, até certo ponto, perigoso. Com Estados Unidos e Europa — os dois grandes mercados — patinando às margens da estagnação econômica, é no Oriente que o antigo “terceiro mundo” busca horizontes para um novo ciclo de crescimento e desenvolvimento.

 

 (Alejandro Ernesto)  



Sangue latino
Até certo ponto, a cúpula de Fortaleza e a sequência do encontro, em Brasília, marcam também um movimento recíproco da parte dos dois “grandes” do Brics. Por razões distintas, Vladimir Putin e Xi Jinping aproveitaram a ocasião para cultivar laços ao sul do Equador — e nas vizinhanças da grande potência do Hemisfério Ocidental. Xi começará o roteiro pelo Brasil, onde vai emendar a participação nos encontros multilaterais com uma visita de Estado. Daqui, seguirá para a Argentina, a Venezuela e Cuba. Putin, que será o primeiro dos quatro visitantes a chegar, assiste à final da Copa, no domingo, e recebe de Dilma a tarefa de anfitrião do próximo Mundial. Já ontem, porém, fez escala em Havana para adubar com o colega Raúl Castro (foto) uma amizade que vem dos tempos da União Soviética — e só esfriou na transição de Gorbachev para Boris Yeltsin. Antes de desembarcar no Rio, o homem do Kremlin passa por Buenos Aires, no sábado, para um encontro com a presidente Cristina Kirchner.

À parte os movimentos bilaterais, Brasília será foro para encontros do Brics com chefes de Estado da Unasul e para uma reunião de coordenação entre a China e um quarteto representando a Celac, a comunidade latino-americana e caribenha. Na trilha sonora, um dos clássicos que fizeram o sucesso dos Secos & Molhados, no início dos anos 1970, com o emblemático verso: “Os ventos do norte não movem moinhos”.

Entre avós
Na aguardada final de amanhã, no Maracanã, a terceira entre Alemanha e Argentina — até aqui, cada uma saiu vencedora uma vez —, Dilma vai estar entre Putin e a chanceler alemã, Angela Merkel, que não economizou nem adoçou as críticas à Rússia pela anexação da Crimeia e pelo apoio à rebelião separatista na Ucrânia.

Mas foi por muito pouco que o presidente russo não entrou de “penetra” em uma inédita troica feminina no altar máximo do futebol, ainda um reduto machista. Cristina Kirchner, que normalmente viria torcer pela seleção alvi-celeste, escreveu carta para a anfitriã enumerando as razões pelas quais ficará na Argentina até a terça, quando chegará a Brasília para o encontro Brics-Unasul. Em repouso para recuperar-se de uma laringite, a presidente receberá Putin em Buenos Aires, hoje, descansará amanhã e voará na segunda para Río Gallegos, no sul, onde festejará o primeiro aniversário do neto Iván. “Como também é avó, você imagina como desejo compartilhar esse momento com a família”, escreveu Cristina, que se despediu com um “afetuosamente” escrito à mão.

Suspense em Havana
Nenhum dos dois governos confirma, mas era considerável a expectativa pela presença de Raúl Castro em Brasília para a reunião China-Celac. Na condição de último país a ocupar a presidência rotativa do bloco latino, Cuba integra o quarteto a ser completado pela Costa Rica, atual detentora do posto, pelo Equador, que a sucederá, e pelo Brasil, como anfitrião.

 

Fonte:: Correio Braziliense, 12/07/2014