É o umbigo, hermanos

07/07/2012 09:45

Autor: Silvio Queiroz,

 

É principalmente por razões de política doméstica dos países-membros que se explicam, em boa parte, os enroscos vividos pelo Mercosul desde o impeachment de Fernando Lugo, no Paraguai — de saída, é de consumo interno dos paraguaios a origem disso que parte dos observadores (mas nem todos) chama de crise no bloco. A resposta dos três sócios, com a suspensão do quarto e a incorporação da Venezuela por rito sumário, desdobrou-se em novos processos interiores de acomodação de forças políticas. E o saldo de mais esse episódio é a constatação de que a integração econômica sul-americana se move em medida considerável pelo entrechoque de movimentações calculadas pela perspectiva interior e própria de alguns governos.

É cada um segundo o próprio umbigo.
O caso mais evidente é o do Uruguai, até pela discussão pública de divergências entre o presidente, o vice e o chanceler. Pepe Mujica, o chefe de Estado, confirmou para a imprensa local que foi do país a iniciativa de que a reunião extraordinária para oficialização do ingresso da Venezuela fosse marcada para o próximo dia 31, no Rio — “porque é um compromisso do Brasil, em grande medida”. Mujica deixou por menos o diagnóstico do vice, Daniel Astori, que classificou como “ferida letal” à legalidade do Mercosul as duas decisões tomadas na cúpula de Mendoza. E, de certa maneira, também retocou a versão do chanceler Luis Almagro, que atribui ao Brasil o “empurrão” para acomodar Hugo Chávez.
Dentro da sólida maioria governamental, Mujica representa a corrente mais à esquerda, dos ex-tupamaros. Astori, como Almagro, se identifica com a ala mais inclinada ao centro.

Tango a três

Não é muito diferente o enredo na Argentina de Cristina Kirchner, às voltas com as difíceis relações no âmbito do peronismo. Nos dias que antecederam a reunião na qual passou o comando do bloco à colega Dilma, Cristina sentiu a pressão de paralisações em série convocadas pelos sindicatos. Desde o legendário Perón, El General, o justicialismo vive entre tapas e beijos com seu braço sindical, numa versão temperada a tango para o dilema clássico do trabalhismo britânico no século 20.

No caso da atual presidente, pesa desde logo um fator ausente para o velho caudilho: o sindicalismo já não é domínio exclusivo do peronismo. E este, embora agregado há uma década em torno do casal Kirchner, tem suas ramificações. Cristina se apoia muito na facção La Cámpora, de esquerda ultranacionalista, que leva o nome do efêmero presidente Héctor Cámpora — eleito em 1973, sob o lema “Cámpora al gobierno, Perón al poder”, com a única missão de trazer o general de volta do exílio para a Casa Rosada, o que se consumou (pelo voto) no ano seguinte. Mas, ademais desse setor e dos líderes sindicais, tem de acertar o passo com uma confederação de caudilhos regionais, alguns com projetos mais ambiciosos.

Quem dá mais?

No caso do Brasil, é igualmente no marco de uma relação engessada entre governo e oposição que se discutem (pouquíssimo, por sinal) as turbulências na vizinhança. Mais do que os rumos e desvios do processo de integração, é de “ganhar ou perder” que se fala: o governo e a diplomacia brasileira foram tímidos? Estavam desinformados sobre a crise paraguaia? Foram a reboque da Argentina? O foco está em uma espécie de contagem de pontos, na qual cada parte faz a soma que melhor lhe convenha.

Com o exercício da presidência rotativa do bloco, neste semestre, o debate que se espera é quanto aos temas substanciais. Como dar marcha à efetiva inclusão da Venezuela a um mercado comum que já padece das exceções em seu modo de operar? Quanto investir de esforços nas negociações comerciais com União Europeia e China, do ponto de vista de navegar na calmaria da recessão mundial?

À mineira

Sem chamar atenção para si ostensivamente, o veterano ex-guerrilheiro Pepe Mujica vai encontrando seu espaço no bloco, como governante do sócio menor e contracenando com duas presidentes de gênio reconhecidamente forte. Em Mendoza, pelo que se desvela da cúpula, o uruguaio manobrou com discrição e saiu com algo próximo de sua queixa sobre o “imobilismo” do Mercosul — “estoy medio cansadito de tanta cumbre…”, ele tinha desabafado já no desembarque.

Menos comentada foi a contribuição (não planejada) ao debate que ele próprio incendiou na vizinhança com seu projeto de regulamentar e estatizar a venda de maconha no Uruguai. Mujica aproveitou a piada de um jornalista argentino, que lhe pediu uma intercessão com Cristina para que siga o passo, para puxar a orelha e lembrar que a proposta não é simples agrado a um punhado de eleitores. “O caso é que temos gastado milhões em uma guerra que estamos perdendo”, encerrou

 

Fonte: Correio Braziliense, 07/07/2012