Críticas à espionagem
Segundo organização internacional, os Estados Unidos ainda não apresentaram uma solução convincente para a polêmica vigilância de dados na internet e, com a prática, inspiram governos repressores.
Os extensivos programas de vigilância dos serviços de inteligência norte-americanos podem ter um efeito devastador em relação à liberdade de expressão na internet, além de serem um exemplo perigoso para outros países, destacou, ontem, o diretor executivo da organização de direitos humanos Human Rights Watch (HRW), Kenneth Roth. A ONG internacional apresentou um relatório com os principais desafios envolvendo mais de 90 países. A espionagem americana é um deles.
Na visão da HWR, o escândalo envolvendo a Agência da Segurança Nacional (ANS) pode favorecer a ação de governos repressores, que têm a possibilidade de usar a espionagem na rede mundial como desculpa para aumentar a censura contra usuários. Roth ressaltou ainda que as mudanças anunciadas pelo presidente Barack Obama não serão suficientes para reformar as atividades monitoramento exercidas pelo país.
Na sexta-feira, Obama anunciou medidas para limitar a atuação da NSA. Entre elas, o comprometimento de não espionar líderes de países aliados. “Tudo que Obama nos ofereceu são algumas garantias vagas de que as comunicações das pessoas serão ouvidas somente se houver um interesse nacional em jogo, o que é um padrão bastante confuso”, disse Roth, em entrevista coletiva em Berlim. “Não houve um reconhecimento de que não norte-americanos fora dos Estados Unidos têm o direito à privacidade de suas comunicações e que todo mundo tem o direito de não ter suas comunicações eletrônicas despejadas em um computador do governo”, acrescentou.
Em um trecho do relatório, a organização destaca que, “como local de nascimento da internet, lar das maiores indústrias ligadas (ao setor) e com a maior parte das comunicações globais online correndo por seu território ou instalações, os EUA têm uma posição única para realizar uma vigilância global” e também uma responsabilidade maior.
Não convenceu
Os escândalos envolvendo a atuação dos EUA fazem com que a população americana se oponha cada vez mais às práticas de espionagem, sempre defendidas como de interesse nacional. Segundo uma pesquisa realizada pelo instituto Pew Research Center, o posicionamento de Obama não convenceu a população. Os resultados mostram que, em julho de 2013, 50% dos americanos aprovavam o trabalho da NSA e 44% desaprovaram. Em janeiro deste ano, os números passaram para 40% e 53%, respectivamente. A pesquisa mostra também que 48% dos entrevistados acreditam que a NSA deveria ter limites mais rígidos e que 45% entendem que Edward Snownden, ex-consultor de inteligência responsável pela revelação dos excessos cometidos pelo país, agiu no interesse da sociedade.
Sem garantias de que as práticas americanas vão, de fato, mudar e de que a coleta de comunicações em massa serão interrompidas, ativistas temem que países como a China tentem “nacionalizar” a internet. Anteontem, o governo de Pequim anunciou um primeiro passo nessa direção ao informar que internautas que desejem fazer uploads de vídeos no site chinês equivalente ao Youtube terão que completar um registro indicando a identidade verdadeira, segundo informações da agência de notícias estatal.
Sob ameaça real
O advogado do ex-consultor da Agência de Segurança Nacional (NSA) Edward Snowden disse que o responsável por vazar informações dos EUA sofre ameaças. Em referência a um artigo publicado na semana passada, intitulado “Espiões americanos desejam a morte de Snowden”, o advogado disse que o perigo de “represálias físicas” contra seu cliente são reais.
Fonte: Correio Braziliense, 22/01/2014.