Coreografia para um consenso
Autor: Silvio Queiroz,
Mendoza 2014 Nas entrelinhas, nos entreditos e nos gestos observados nas reuniões de cúpula do Mercosul e da Unasul, é possível reconstituir um elaborado processo de conversações e negociações que produziu o consenso expresso nas decisões e na declaração final. Embora seja exagerado falar em divergências de fundo ou mesmo em uma queda de braço, diferenças de tom sobre a crise no Paraguai ficaram evidentes desde que foi aprovado o impeachment relâmpago de Fernando Lugo. E, nas relações internacionais, a escolha das palavras tem valor mais do que simbólico: ela traz embutidos diagnósticos da realidade e rumos traçados para confrontá-la.
Os termos escolhidos por Cristina Kirchner, diante dos colegas sul-americanos, são reveladores nesse aspecto. Começando pelo cuidado com que repeliu distorções em torno da posição de seu governo, sempre mais enfática na condenação ao golpe 2014 palavra que desapareceu do discurso final da presidente argentina.
Foi o delicado balé envolvendo os chanceleres e outros diplomatas, desde a sexta-feira da semana passada, que produziu a declaração de ontem, enfática na condenação à ruptura da ordem democrática a fórmula preferida, desde início, por Brasil, Uruguai e outros vizinhos. Foi ela que deu título à nota, emitida em Buenos Aires, na noite seguinte à do impeachment, determinando a exclusão do Paraguai da cúpula de Mendoza. Coincidentemente, a mesma expressão constava do comunicado, publicado duas horas mais tarde, no qual o governo brasileiro anunciava a convocação do embaixador em Assunção para consultas.
Em bom portunhol: ao longo de uma semana, a procura ávida dos observadores por um protagonista deu lugar à constatação de que a integração sul-americana cobra como preço essa renúncia. Se alguém roubou a cena, nesta cúpula, foi um ausente: Hugo Chávez, que assistiu de Caracas à integração da Venezuela ao Mercosul.
K entre nós
Um toque de intimidade feminina passou despercebido no encontro entre Dilma e Cristina Kirchner, que recebeu a colega brasileira (e o uruguaio José Mujica), ontem de manhã, no lobby do Hotel Intercontinental. A visitante, a caminho da anfitriã, abriu os braços para um abraço caloroso, seguido de uma conversa quase ao pé de ouvido. Foi quando, mesmo sem microfones, foi possível fazer a leitura labial do diálogo. A qué horas llegaste?, perguntou Cristina, com ares de cuidado diante da aparência cansada de Dilma, que respondeu: À uma e meia.
Céu de brigadeiro
A manhã clara de Mendoza, sem uma nuvem sequer no céu de inverno, combinava à perfeição com o bom humor de Dilma, flagrante na conversa relaxada que manteve com os colegas. Àquela altura, a presidente certamente já recebera as boas notícias da pesquisa Ibope-CNI: a aprovação do governo em alta, de 55% para 59%, e a dela, estável na altitude de cruzeiro de 77%, o patamar recorde atingido na sondagem de abril.
Cara, crachá
O aparato de segurança montado em Mendoza para a cúpula fez da área do Hotel Intercontinental, local do encontro, praticamente uma cidade à parte. As vias de acesso estavam interditadas e as credenciais eram exigidas até mesmo para chegar de táxi até o ponto máximo de aproximação, a cerca de 200m do local. Dali em diante, a cada 50m de caminhada um policial conferia cara e crachá. O centro de imprensa, instalado em uma grande tenda ao lado do hotel, estava separado do setor reservado por um portão sob controle constante, fechado sem exceções cada vez que chegava um chefe de Estado.
Dentro do hall, só mesmo os portadores de credenciais específicas para o encontro.
Carne aos leões
Com um batalhão de jornalistas isolados das delegações, e na falta de eventos e informações públicas, os organizadores providenciaram pão e circo para a imprensa durante as longas horas de espera por alguma declaração oficial. Além dos quitutes servidos em intervalos regulares, foram oferecidos tours para acompanhar a chegada dos governantes, na tarde e na noite de quinta-feira, e até um tour pelo comando da operação de segurança.
Babel bilíngue
Com quantos idiomas se ergue uma torre de Babel? Em Mendoza, bastaram o português e o espanhol. Desde a primeira manhã do encontro, uma gincana burocrática aguardava os correspondentes no centro de credenciamento montado em um auditório no centro da cidade, a bons 20 minutos (sem trânsito) do Intercontinental.
Fonte: Correio Braziliense, 30/06/2012.