Argentina de abril a abril
Autor: José Flávio Sombra Saraiva - Ph. D. pela Universidade de Birmingham, Inglaterra, e professor titular de Relações Internacionais da UnB.
Há 30 anos rompiam-se as relações diplomáticas argentino-britânicas. Era o abril de 1982. Milhares de habitantes de Buenos Aires abraçaram o regime de força no gesto nacionalista dos generais e almirantes, mesmo diante do ocaso militar e da tortura de seus filhos. Outros tantos protestaram contra a guerra inventada pela caserna.
Era a única manobra que poderia animar as massas, renovar o moral da tropa e reforçar a junta militar dirigida por Galtieri, perdido em seu alcoolismo intermitente. Seria roteiro para uma boa ópera bufa não fosse fato espetacular urdido pelos ditadores argentinos para recuperar legitimidade de um regime decrépito. A recuperação das Malvinas, reivindicação histórica, foi pretexto estudado pela decadência do regime.
Os militares argentinos desejavam fazer esquecer aos compatriotas a inflação que chegava a galope, a crise fiscal, as violações dos direitos humanos e o terror que fez desaparecer dezenas de milhares de professores, médicos, engenheiros e jovens universitários do país austral. O nacionalismo de países inacabados, carentes de identidade que agregue o coletivo, anima-se com campanhas militares externas. As Malvinas proveram uma boa saída para as crises domésticas.
Uma surpresa o avanço do abril de 1982 sobre quem amava tanto. Afinal, os britânicos ajudaram a construir a Argentina. Ao lado do Chile e do Uruguai, recebeu a Argentina um dos maiores contingentes de imigrantes das ilhas britânicas na América do Sul. Governantas irlandesas vieram cuidar dos berços ricos dos haciendados argentinos no tempo da grande Argentina do trigo e da carne. Seus filhos adoravam estudar na Inglaterra, esbanjar a língua inglesa. O terninho azul-escuro com botões dourados era a marca dos uniformes escolares até pouco tempo nas escolas de ricos e pobres, à moda inglesa antiga.
A Argentina foi última nação da América do Sul a seguir a geopolítica do declinante poder inglês quando os ianques já iniciavam sua elevação. Ao contrário dos cálculos políticos de países como o Brasil, que procurou se associar ao sistema norte-americano desde o Barão do Rio Branco, a Argentina permaneceu colada ao capitalismo inglês. Isso foi bem demonstrado pelo historiador Mario Rapoport. A Inglaterra foi base de financiamento do agro argentino do fim do século 19 às décadas iniciais do século 20, e até mesmo após a Segunda Guerra Mundial. Tardaram os argentinos a entender que o império britânico acelerava sua decadência. O mundo havia mudado.
As manifestações desses dias, na Argentina, em torno da guerra de 1982, movem novos fantasmas. Não são os das famílias dos 490 jovens argentinos que morreram nos campos da guerra, tampouco dos parentes abandonados dos que se suicidaram depois da guerra de 1982.
O país parece reviver, hoje, os discursos nacionalistas e anticoloniais dos militares de antes, em nova roupagem. Afinal, o país é outro. Mas não tanto. Uma crise econômica sugere bater as portas de um regime político que opera por mobilização, cooptação e intimidação de adversários.
Há problemas na fronteira sul do Brasil. Inflação galopante, desarranjo fiscal, fuga de capital, crise no abastecimento de petróleo (pois se tornaram importadores do produto), salários deprimidos, entre outros aspectos, assombram a Casa Rosada. A intervenção na empresa Repsol-YPF e o projeto de lei submetido ao Congresso Nacional que prevê expropriação de 51% da participação acionária da companhia espanhola põem de orelhas em pé as empresas do Brasil que se internacionalizaram em parte no país amigo e vizinho.
O que representará o novo uso político do tema Malvinas do abril de 2012, 30 anos depois? A memória e a reparação são razões justas. E o Brasil presta solidariedade ao país vizinho, desde o século 19. Ficamos na mesma posição histórica. Mas resolvemos nossos temas de fronteiras e territórios há muito tempo, por meio negociado, sem muito barulho. Acompanhar a Argentina do abril de 1982 ao abril de 2012 não é tarefa fácil. Os tempos são outros. Os discursos, não.
Fonte: Correio Braziliense, 29/04/2012.