A viabilidade da energia nuclear brasileira
Autor: Luiz Gonzaga Bertelli - Fiesp-Ciesp
Consta que o maior progresso no aproveitamento pacífico da energia nuclear foi atingido no domínio da produção de eletricidade em usinas nucleares. As experiências da equipe de Fermi, em Chicago, em 1942, de conversão da energia nuclear em energia elétrica, foram coroadas de sucesso, com a instalação de dezenas de centrais nucleares, notadamente na Europa, totalizando a produção de milhões de watts.
No Brasil, em face da preocupante situação atual dos reservatórios das hidrelétricas, decorrente da limitada incidência de chuvas nos dois últimos anos, ressurge a acalorada discussão do emprego da energia nuclear, como paliativo ao possível desabastecimento. Os analistas do setor energético, diante do cenário pátrio, ponderam que estamos à frente de apenas duas soluções para a crise que se avizinha: as usinas térmicas, acionadas a gás natural ou as centrais nucleares.
Com mais da metade do gás natural usado nas térmicas importado da Bolívia, o que gera uma dependência política e econômica preocupante, apregoa-se, novamente, no tocante ao emprego dos depósitos de urânio brasileiros (sexta maior reserva mundial), totalizando 309 mil toneladas, nas térmicas nucleares, diante da condição nacional de possuirmos os aludidos reservatórios de urânio mais relevantes do universo.
Nessa conjuntura, os responsáveis pela política energética brasileira deverão decidir, provavelmente após as eleições presidenciais, no concernente à possibilidade de expansão do programa nuclear.
Atualmente, o Brasil possui em operação regular as usinas nucleares de Angra I e Angra II, que geram cercam de 2 mil MW, correspondendo a 1,5% da matriz elétrica do país. Após a conclusão de Angra III, mais 1.350MW serão acrescentados à produção de eletricidade nuclear, consoante a informação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Está prevista a construção de mais oito térmicas nucleares, que acrescentarão em torno de 4 mil MW ao atual balanço energético brasileiro, conforme estabelece o Plano Nacional de Energia (EPE) 2030.
Sobre a questão, é bem provável a manifestação dos ambientalistas, contrariamente aos novos projetos nucleares no Brasil, mormente após o acidente nuclear de Fukushima, cujos reflexos ainda persistem em todo o mundo. Com efeito, permanece o desafio tecnológico do reprocessamento do combustível utilizado e da destinação dos rejeitos.
O governo japonês, no entanto, no plano de abastecimento energético aprovado no início de abril, prevê o ordenamento da oferta de energia nuclear, descartando a decisão de eliminar a mencionada energia atômica nos próximos 20 anos. Para a entidade brasileira, que propugna pelo maior incremento da energia nuclear, trata-se de eletricidade limpa, econômica e com o uso de combustível nacional (urânio).
Em contrapartida, a Greenpeace declara que a eletricidade nuclear é prescindível, diante do potencial pátrio de fontes renováveis, como ventos (eólicas), biomassa (bagaço da cana e madeira) e solar, consideradas mais baratas, ecológicas e limpas que a nuclear.
No leilão do fim de abril, o Ministério das Minas e Energia (MME) fixou às distribuidoras o preço de
R$ 271 por megawatt-hora (MWh) para as hidrelétricas e de R$ 262/MWh para as térmicas, depois de o valor alcançar o fantástico recorde de R$ 822/MWh.
Com tais procedimentos, o governo pretende diminuir os gastos das distribuidoras de eletricidade e, dessa forma, reduzir os aumentos da conta de luz, em 2015, o que será inexorável. A administração federal já está emprestando R$ 11 bilhões às distribuidoras e, em 2013, os aportes alcançaram R$ 10 bilhões.
Consoante a manifestação dos estabelecimentos bancários e das corretoras, o racionamento da eletricidade acontecerá, entre nós, no decurso deste ano ou no vindouro. Contribui para tanto o uso alto de energia, decorrente do maior acesso às camadas mais pobres da população dos equipamentos elétricos, as temperaturas altas e a escassez de chuva. Adicione-se a vinda de milhares de turistas para a Copa do Mundo, a partir de junho, aumentando o consumo elétrico.
A única saída seria o incremento das usinas térmicas, embora mais caras e poluentes, entre as quais, no futuro, as nucleares, apesar dos protestos e dos malefícios já declinados.
Fonte: Correio Braziliense, 02/05/2014